Atualidades, Gerenciamento de Projetos

56 Comentários 17.04.13 11295 Vizualizações Imprimir Enviar
O que o biquíni esconde e o custo das novas refinarias…

O que o biquíni tem a ver com o custo das novas refinarias?? Existe uma frase famosa, atribuída a Aaron Levenstein, professor norte-americano de Estatística: “A estatística é como um biquíni, o que mostra é sugestivo, mas esconde o essencial” (o original tem uma rima interna: “Statistics are like a bikini, what they reveal is suggestive, but what they conceal is vital”)  (http://dererummundi.blogspot.com.br/2009/07/citacao-sobre-biquini-e-estatistica.html).

 O custo das novas refinarias:

Muito se tem falado e escrito sobre o custo das novas refinarias. Estudo realizado pelo analista Emerson Leite, do Credit Suisse, publicado no Estado de São Paulo (http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,refinarias-sao-as-mais-caras-do-mundo,631368,0.htm) menciona que as refinarias do Nordeste estão entre as mais caras do mundo.

É fato que o refino, ao contrário da produção, traz margens pequenas de ganho, enquanto exige um volume extraordinário de recursos, como já foi levantado aqui no Blogtek, em Cerveja e cigarros, Petróleo e derivados.

O estudo do analista Emerson Leite aponta que as refinarias Abreu e Lima, e as Refinarias Premium I e II, apresentam maior custo por barril, se comparadas a outras refinarias em construção no mundo no momento, especialmente na Índia e na China.

Enquanto a média de investimentos mundial gira em torno de US$18.000/barril de capacidade instalada, no Brasil a média é de US$ 40.000/barril de capacidade instalada. Ou seja, uma refinaria com capacidade de processar 300.000 barris por dia (por exemplo, a Premium II) deveria custar, de acordo com a média mundial,  US$18.000 x 300.000 = US$ 5.400.000.000.

É aí que entra a citação do professor Aaron, e o cuidado que devemos ter com as estatísticas.

Custos  da mão de obra na Índia e China

“A principal razão para o aumento dos custos, a nosso ver, é a falta de infraestrutura nos locais escolhidos pela Petrobrás para instalar suas refinarias, ou seja, os Estados de Pernambuco, Ceará e Maranhão. Os três localizados em uma área relativamente pouco desenvolvida, com um pequeno mercado de produtos petrolíferos em relação ao Sul e Sudeste, e praticamente sem produção de petróleo”, considera o analista em seu relatório. O analista está correto no que se refere à falta de infraestrutura, porém por outro lado há que se prover de derivados estas regiões, além de estarem mais próximas dos destinos de exportação. Ademais, a instalação destas refinarias catalisa outros empreendimentos, e alavanca o progresso na região.

Porém, há outro importante fator a ser considerado. Em obras tais como de construção de refinarias, nas quais podemos em seu pico ter 40 a 50 mil pessoas trabalhando, evidentemente o custo da mão de obra é preponderante.

Então, quando falamos de uma média mundial de US$ 18.000/barril de capacidade instalada, temos que nos lembrar que nesta média entram países como China e Índia, que vem construindo também refinarias, e portanto tem grande peso na formação desta média. E como é o custo da mão de obra nestes países (http://www.bls.gov/ilc/#compensation – excelente banco de dados sobre remuneração e produtividade mundiais)? Veja a seguir:

 

Salários por hora, em dólares
Salários por hora, em dólares, base 2011

Note que sequer aparecem os custos horários da China e da Índia. Por que? Porque ficaram fora de escala, então há um gráfico específico para estes dois países:

Salários por hora, em dólares, na Índia e na China

Salários por hora, em dólares, na Índia e na China

Então, se compararmos a remuneração do Homem-Hora em 2007 do Brasil (obtido por interpolação da tabela 1, a seguir), China e Índia, teremos US$ 10,34/h no Brasil, US$ 1,17/h na Índia, e US$ 1,06 na China. Isto é remuneração, fora encargos. Se considerarmos que o Brasil está em terceiro lugar no MUNDO com relação aos encargos sociais (tabela 2, a seguir), veremos que não há como comparar os custos de mão de obra!!! Evidentemente, China e Índia trazem esta média muito para baixo.

Salários por hora, em dólares, em 2007

Tabela 1: Salários por hora, em dólares, em 2007

Encargos sociais, no mundo (%)

Tabela 2: Encargos sociais, no mundo (%)

Em 2010, o então Diretor de Abastecimento da Petrobras, mencionava: “Temos avanços aqui dos quais não podemos abrir mão”, disse ele, referindo-se ao tratamento dispensado à mão de obra no Brasil e outros países, como China e Índia.

Na China, o trabalhador passa a ter direito a três semanas de férias após 20 anos de trabalho…

Portanto, vamos refletir um pouco quando dizemos que o custo de construção das novas refinarias é excessivo. Queremos viver como vivem os trabalhadores da Índia e da China? Isto seria bom para o País? E para sua população? É salutar buscar reduções em custo, otimizar, evitar desperdício… mas não vamos nos iludir, imaginando que conseguiremos construir refinarias ao custo da média mundial!

 Outras frases sobre Estatística:

“O indivíduo com a cabeça dentro do forno e os pés no freezer pode estar com uma excelente temperatura média.” Autor desconhecido

“Há três tipos de mentiras: mentiras, mentiras descabeladas, e estatísticas.” Benjamin Disraeli (primeiro-ministro britânico, falecido em 1881)

“Use a estatística como o bêbado utiliza o poste, mais pelo apoio do que pela luz.” Autor desconhecido

“Torture seus dados até que eles confessem o que você deseja comprovar” Autor desconhecido

 

 

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Stonner

Rodolfo Stonner, Engenheiro Mecânico pela UFRJ, atuou como Engenheiro de Equipamentos Sênior da Petrobras, e foi Gerente de Construção e Montagem das Obras Extramuros da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco. Atualmente aposentado, é consultor e instrutor nas áreas de Gerenciamento de Projetos e Gestão da Manutenção, e está atuando com a Deloitte na implantação do PMO para a Refinaria de Talara, Peru. Gosta de lecionar, trocar experiências e conhecimentos, é certificado como PMP (Project Management Professional) e RMP (Risk Management Professional) pelo PMI, e CRE (Certified Reliability Engineer) pela ASQ.

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