Gerenciamento de Projetos

Comente 25.01.21 837 Visualizações Imprimir Enviar
Jogo de Planilha reverso – você conhece?

Jogo de Planilha reverso – o Jogo de Planilha, objeto de artigo aqui no Blogtek, é uma estratégia utilizada por algumas empresas para vencer licitações, porém posteriormente maximizar seu faturamento. Hoje veremos uma abordagem mais sutil, o chamado Jogo de Planilha reverso. Se você quiser ser notificado dos próximos artigos, cadastre seu e-mail aqui abaixo, em Assine o Blogtek! SEU E-MAIL NÃO SERÁ USADO POR TERCEIROS.

Jogo de Planilha reverso – conceito

Nos Contratos por Preços Unitários, o serviço é definido em termos de unidades mensuráveis, tais como m, tais como m³ de escavação ou aterro, quantidade de válvulas de determinado tamanho a serem montadas ou substituídas, m² de pintura, metros lineares de solda, etc. As quantidades de execução de cada item são estimadas, as licitantes propõem preços para cada um dos itens, e o preço total, válido para definir a vencedora da licitação, é o somatório das quantidades estimadas pra cada item vezes o preço proposto para o respectivo item.

Como as quantidades são estimadas, pode haver variações nas quantidades executadas, dentro de certos limites (tipicamente +/- 25%).

As quantidades são, obviamente, estimadas pela equipe da empresa contratante. No entanto, enquanto a equipe contratante estima, muitas vezes sem maiores cuidados, as quantidades para cada item, a equipe orçamentista licitante dedica uma análise profunda a esta quantidades estimadas.

E, nesta análise, a equipe orçamentista licitante pode detectar alguns erros nas estimativas, e usá-los a seu favor.

A título de exemplo, imagine um contrato de serviços de manutenção em tubulações. Estes contratos normalmente são por preços unitários, pois é muito difícil estimar a quantidade de cada item. São contratos com uma planilha de preços muito extensa, mas vamos destacar aqui dois serviços apenas, o reengaxetamento de válvulas de 2”, e a substituição de válvulas de 18”.

A Contratante estimou, ao longo da vigência do contrato, cerca de 400 engaxetamentos de válvulas de 2”, e 20 substituições de válvulas de 18”, conforme mostra a tabela a seguir.

A Licitante B, seja por conhecer melhor os serviços, seja por ter dedicado mais tempo e recursos à análise dos itens da planilha, percebe que na realidade o item engaxetamento será feito em uma quantidade muito superior à estimada, enquanto a substituição de válvulas de 18”, serviço mais complicado e difícil, foi superestimado. Na realidade, ocorrerão muito menos destes serviços.

Então, como estratégia para vencer a licitação, a Licitante B aumenta o preço que cobrará pelo engaxetamento de válvulas de 2”, e diminui o valor da substituição de válvulas de 18” (pode até ter “prejuízo” neste item, se considerado apenas isoladamente). Enquanto isto, a licitante A, talvez sem conhecimento destas especificidades, faz seu orçamento cotando cada item de forma coerente com a carga de trabalho nele envolvida.

Vemos a seguir que a licitante B foi a vencedora do Certame.

No entanto, caso se verifiquem efetivamente desvios substanciais nas quantidades estimadas, podemos ter o resultado ilustrado a seguir, onde vemos que, no final das contas, o preço pago pelos serviços com a licitante B, vencedora da licitação, foi maior do que se tivéssemos executado os serviços com a licitante A. E quem foi o vilão? A má estimativa das quantidades a serem realizadas.

Ou seja, no Jogo de planilha usual, busca-se aumentar os ganhos através da manipulação de preços, a maior, em itens com quantidades subestimadas.

No Jogo de Planilha reverso, busca-se aumentar a competitividade no certame, através de uma redução extrema e artificial, de um item que se proporá, a posteriori, não realizar.

Ficou complicado? Sim, eu sei! Eu também não conhecia esta modalidade, quem me ensinou foi o TCU.

Jogo de Planilha reverso – exemplo

Ao retornar dos EUA, onde fui gerente de controle do projeto de ampliação da Refinaria de Pasadena, vim ser gerente do contrato de terraplenagem da Refinaria Premium I, no Maranhão.

Ao assumir o posto, a licitação já havia sido realizada, tendo um determinado consórcio apresentado o melhor preço, inferior inclusive à nossa estimativa.

O contrato previa em quase metade da área da futura refinaria, uma compactação de terreno utilizando uma mistura de solo arenoso, solo argiloso (ambos presentes na área), e uma porcentagem de cal, que era estimada de 1 a 3%, podendo ser aplicada por via úmida ou via seca. Para definir o percentual correto, e a via de aplicação, era previsto no contrato a realização de alguns aterros experimentais para checar a compactação do Solo.

 Por que já não se definia o percentual e a forma de aplicação? Porque tínhamos resultados de laboratório, que deveriam ser confirmados no campo. Poderíamos ter feito um contrato à parte para realização destes aterros experimentais, porém isto demandaria tempo, e o projeto era schedule driven. Utilizou-se, portanto, da técnica de aceleração de projetos denominada fast-tracking, incluindo no contrato de terraplenagem estes aterros experimentais.

O fato de incluirmos estes aterros experimentais evidenciava aos licitantes que não tínhamos certeza da melhor solução. A quantidade de cal estimada era de 371.000 toneladas.

Uma das empresas do consórcio vencedor havia feito a supressão vegetal do terreno, e por ter estado na área, detinha conhecimento do solo. O Tribunal de Contas da União (TCU), que já nesta fase auditava o contrato, alertou para o risco de Jogo de Planilha reverso. Nos informou que o preço oferecido pela tonelada de cal era cerca de 20% do preço da tonelada de cal, agravado pelo fato de inexistirem jazidas próximas.

E os auditores nos explicaram que o Jogo de Planilha reverso consistia em justamente incluir este item, com preço extremamente subestimado, para dar competitividade à sua proposta, para posteriormente justificar a não execução deste item.

E, de fato, logo após o início dos trabalhos de terraplenagem, mesmo sem a execução dos aterros experimentais, o consórcio nos propôs uma outra mistura de solos arenosos e argilosos, sem a necessidade de cal, o que representaria uma economia de cerca de R$ 32 Milhões.

Enquanto Gerente do Contrato, argumentei que a proposta deveria ser avaliada sob os aspectos técnico, comercial e legal (ainda que me parecesse interessante ter uma redução de 32 milhões no contrato!).

Do ponto de vista técnico, a proposta foi aprovada. Comercialmente, uma redução de 32 milhões era bem vinda. Porém… do ponto de vista legal, o TCU opinou: a empresa estava praticando o jogo de planilha reverso. Ou seja, já contava com a não execução deste serviço. E o TCU, que muito nos auxiliou na fiscalização, pela experiência e visão que tem, informou que se fosse para ser feito sem cal, a segunda colocada no certame teria sido a vencedora. Portanto, para não utilizar a cal, além dos 32 milhões da cal (cuja não utilização já fazia parte das contas internas do Consórcio) o Consórcio deveria dar mais um desconto de, no mínimo, 25 milhões, para pelo menos equiparar-se à segunda colocada. Veja outros critérios adotados pelo TCU aqui.

Aí é que a coisa ficou complicada. Nossa sorte é que, pela abundância de chuvas na região, durante os meses de Janeiro a Junho, o contrato previa desmobilização no primeiro semestre de cada ano. E passamos estes 6 meses nesta queda de braço, até que logramos atender ao que o TCU solicitava: um desconto adicional de 25 milhões, além dos 32 milhões…

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Stonner

Rodolfo Stonner, Engenheiro Mecânico pela UFRJ, atuou como Engenheiro de Equipamentos Sênior da Petrobras, e foi Gerente de Construção e Montagem das Obras Extramuros da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco. Atualmente aposentado, é consultor e instrutor nas áreas de Gerenciamento de Projetos e Gestão da Manutenção, e está atuando com a Deloitte na implantação do PMO para a Refinaria de Talara, Peru. Gosta de lecionar, trocar experiências e conhecimentos, é certificado como PMP (Project Management Professional) e RMP (Risk Management Professional) pelo PMI, e CRE (Certified Reliability Engineer) pela ASQ.

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