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Van Halen, M&M, e os Memoriais Descritivos

Stonner 22 Comentários 01.05.13 2028 Vizualizações Imprimir Enviar

Van Halen é o nome de uma banda de Hard Rock, formada a partir dos irmãos Van Halen, a qual fez uma carreira alternando períodos de grande sucesso com períodos de quase desaparecimento. No auge de seu sucesso, foi uma das bandas precursoras dos grandes shows, cheios de efeitos especiais e com o som em alto volume. Foi nesta época que seus contratos passaram a exigir dos empresários uma estranha cláusula: nos camarins, deveria haver profusão de confeitos M&M, mas sob hipótese nenhuma poderia haver algum deles marrom. E o que esta mania, frescura ou superstição tem a ver com Memoriais Descritivos?

 A origem da exigência

Durante muito tempo imaginou-se que esta exigência de não haver M&M marrons fosse apenas uma vertente de estrelismo e bizarrice da banda, estilo que depois viria a ser seguido por muitos outros músicos.

Na verdade, a exigência foi introduzida por David Lee Roth, vocalista da Banda, e elemento de grande influência. Foi vocalista da banda Von Halen de 1974 a 1985, voltou por breve período em 1996, e está de novo com a banda desde 2006, e apenas no ano passado revelou o motivo de tão extravagante exigência. A exigência surgiu em 1982, quando foram dar um show no estádio Spectrum, na Filadélfia, e colocaram no contrato os seguintes termos, para os camarins:

Potato chips with assorted dips

Nuts

Pretzels

M&M’s (WARNING: ABSOLUTELY NO BROWN ONES)

Twelve (12) Reese’s Peanut Butter Cups

Twelve (12) assorted Dannon yogurt (on ice)

Van Halen foi das primeiras bandas a realizar grandes concertos. Hoje, empresas especializadas estão habituadas com estes megaeventos, mas, àquela época, havia muita improvisação na movimentação dos equipamentos e montagem do palco e som.

estádio Spectrum, na Filadélfia. Primeira vez em que foi feita a exigência

estádio Spectrum, na Filadélfia. Primeira vez em que foi feita a exigência

Além da questão da qualidade do som, havia a questão do risco. Diversas vezes membros da equipe técnica da banda sofreram choques elétricos, os quais poderiam ser graves e até fatais. Então, a banda começou a incluir uma série de exigências, cada vez mais detalhadas (lhe soa familiar?), com o intuito de garantir a qualidade do som e a integridade e segurança da equipe técnica.

Mas os concertos são eventos de curta duração, e as exigências eram tantas que havia sempre a preocupação se todas exigências contratuais haviam sido cumpridas, e certamente não havia tempo para conferência de todos os itens (será que em nossos contratos, de manutenção, montagem, construção, realmente conseguimos checar todos os itens?).

Então Roth teve a ideia de colocar esta exigência dos M&Ms, e a necessária exclusão dos M&Ms marrons. O conceito era de que, se o contratante do espetáculo chegava a verificar este detalhe tão insignificante, teríamos uma boa dose de confiança de que os demais, e efetivamente relevantes, tivessem sido atendido.

 Memoriais Descritivos: definição

Os projetos de engenharia, arquitetura ou de outras ciências devem conter em um documento todo o detalhamento do projeto realizado (http://www.memorialdescritivo.com/).

Esse documento é chamado de memorial descritivo do projeto e, dentre inúmeros outros tópicos, pode conter:

  • conceituação do projeto
  • normas adotadas para a realização dos cálculos
  • premissas básicas adotadas durante o projeto
  • objetivos do projeto
  • detalhamento de materiais empregados na obra ou no produto
  • demais detalhes que pode ser importantes para o entendimento completo do projeto

Em resumo, o Memorial Descritivo, como o nome sugere, descreve tudo que deve conter o projeto, normas, objetivos, detalhamento, etc.

 Os M&Ms de nossos Memoriais Descritivos

Van Halen 03

Os famosos M&Ms

Ao elaborarmos o Memorial Descritivo objetivando uma Contratação, temos a preocupação de não deixar nada a descoberto. Então, colocamos no Memorial uma quantidade inimaginável de Normas, referências, anexos, etc., com a cândida suposição de, por lá estarem, serão cumpridos e garantirão a performance requerida. Ledo engano!!

O que ocorre é que a Fiscalização não tem tempo para checar todas as exigências incluídas, e na maioria das vezes há coisas bem mais prioritárias a serem cobradas e checadas. Resulta portanto em mero desperdício de tempo, papel e paciência a inclusão de tantas normas e anexos. Há casos de contratos em que a quantidade de páginas de toda a documentação excede 7.000 páginas!!!

Então, ao prepararmos um Memorial Descritivo com vistas a uma Contratação, devemos ter em mente alguns cuidados com as exigências que iremos colocar:

  • Este item agrega valor?
  • Ou, apenas agrega custo?
  • Não há normas correntes que já contemplem estes requisitos, por exemplo, NRs?
  • O que estamos exigindo está coerente com as demais normas existentes?
  • Teremos condição de verificar se estes requisitos efetivamente estão sendo cumpridos?

Já ocorreu de em um Anexo que definia a construção do canteiro da Contratada haver uma exigência do banheiro ser ladrilhado até 1,80 m. Isto nunca foi verificado, até que uma auditoria checou, e viu que na realidade estava ladrilhado apenas até 1,60 m. A Fiscalização teve que fazer o cálculo, obter o valor e proceder ao desconto à contratada.

  • Ladrilhos até 1,60 m ou 1,80 m faz diferença?
  • Para que especificar este tipo de acabamento?
  • A NR-18 não atende às necessidades?

Então, como dizem os pragmáticos americanos: Keep it simple!!!

 

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Stonner

Rodolfo Stonner, Engenheiro Mecânico pela UFRJ, atuou como Engenheiro de Equipamentos Sênior da Petrobras, e foi Gerente de Construção e Montagem das Obras Extramuros da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco. Atualmente aposentado, é consultor e instrutor nas áreas de Gerenciamento de Projetos e Gestão da Manutenção, e está atuando com a Deloitte na implantação do PMO para a Refinaria de Talara, Peru. Gosta de lecionar, trocar experiências e conhecimentos, é certificado como PMP (Project Management Professional) e RMP (Risk Management Professional) pelo PMI, e CRE (Certified Reliability Engineer) pela ASQ.

DEIXE O SEU COMENTÁRIO

  • Juliano

    É verdade, as vezes na vontade de acertar e “se garantir”, são criados verdadeiros monstros impossíveis de serem devidamente verificados e conferidos.
    Concordo que o segredo do sucesso as vezes está na simplicidade.

  • Olá, Juliano, e hoje em dia temos muitos destes monstros para lidar…exigências que não temos possibilidade real de checar, e que não agregam nada.

  • dilma

    Devidamente registrado Mestre.
    Atenção aos confeitos marrons (rsrsrsr)
    Mais um artigo para inclusão em meus favoritos
    Obrigada e parafraseando seu texto “keep on doing”
    Abs

  • Bruno B. S.

    Artigo muito interessante! Parabéns… Keep on doing this great work! A mais pura verdade, finalmente alguém se manifestou em relação a isso, alguns contratos são muito pesados, complexos, impossíveis de serem completamente fiscalizados, com diversos itens redundantes à normas, ET’s e até NR’s! Muito legal a sacada dos MM’s marrons pela banda Van Halen também…

    Um abraço,

    Bruno

  • Nilo de Moura

    Caro Stonner , saudações
    Tal extensão de necessidades e tentativas de aprimoramento para se atingir a perfeição , também não está acontecendo com a contratação de mão de obra , preocupa-se com a formação , isto é natural , mas se esquece da experiência :
    Ex: Um aprendiz de Eletricista , que fez um curso de especialização com duração de 10 Sabados , Tem 1 ano de profissão , já esta sendo considerado um Profissional , em detrimento de um que tem 10 anos de profissão e que não pode tirar o ou renovar sua habilitação.

  • É verdade, é muita coisa para ser fiscalizada, e muitas vezes sem agregar valor….

  • è fato, Nilo, já tivemos que abrandar exigências de experiência por não encontrar profissionais com a experiência requerida, em quantidade suficiente para atender à demanda.

  • Luiz Carlos Ramos Cruz

    Mas mestre Stonner, é por isto que diante da Complexidade a Simplicidade se impõe.
    Segue a reflexão de Albert Einstein – ” Tudo deve ser feito da forma mais simples possível, mas não mais simples que isso”.
    Abraços e obrigado pela aula !

  • Osmar Leite

    Stoner,,

    Veja só o que é subconsciente, como planejador durante as nossas paradas de manutenção na PRSI em 2009, acabei carregado os colegas para assistir o show do Van Halen no Toyota Center.
    Agora está explicando a nossa excelente performance antes, durante e no final dos nossos Turnarouds, rsrs

    Abarco

    Osmat Leite

  • Osmar, além do prazer de assistir um bom rock…rsrsrsrs….

  • Anibal Bosi

    Stonner, artigo fantástico! Recentemente aqui, na UO-BS, fui designado para implantar um piloto no FBS (Fornecimento de Bens e Serviços) de uma célula de contratação de pequenos serviços (NO E&P, contratações até R$ 160.000,00 e prazo máximo de 1 ano). A maior dificuldade é receber do cliente (aqui, no nosso caso, os setores de operações dos ativos – ATP/OP) uma especificação (MD) adequada. Preparei um roteiro, um check list similar ao que você propôs acima e iniciei um “treinamento” com a força de trabalho das OP’s. Eu gostaria até mesmo de sugerir um treinamento formal (via UP) com orientações sobre a elaboração de ET / MD, com foco não somente técnico mas também com orientações jurídicas, tributárias ou outras de ordem administrativa. Parabéns pelo artigo!

  • Muito obrigado, Anibal! Há na UP um curso customizado para a Engenharia, de 40 horas, que é obrigatório para quem vai ser fiscal ou gerente de contrato. Talvez vc consiga algo similar para sua área. O leque de cursos da UP é muito grande, e provavelmente haverá algo que atenda às suas necessidades.

  • RUBENS ROBERTO FARIA GARCIA

    Grande Mestre STONNER,
    Estamos passando por uma leve crise da falta de Qualidade de Fiscalização(conhecimento, habilidade e atitude), principalmente pró ativa. As obras da Prefeitura da minha cidade, em frente minha casa, ,por exemplo, estão repleta de atos equivocados, falta de planejamento,e mão de obra sem qualificação.
    Mas, por outro lado, tambem tenho encontrado os mesmos desvios em pequenas e grandes empresas.
    Stonner, continue usando vossa inteligência a serviço da transformação!

  • Muito obrigado, Rubens, espero poder continuar a contribuir!

  • Pura verdade, mestre, quantas vezes me deparei com um contrato onde meu maior trabalho era saber como poderia fiscalizar ou medir determinadas “bizarrices” que foram incluídas, sabe-se lá por que. E o pior que em algumas vezes questionei a pessoa que elaborou o contrato do “por que” daqueles itens e a resposta eram shows de horrores do tipo, “É sempre bom pidir bastante coisa né”, acreditem já ouví isso.

    Parabéns pelo excelente artigo.

  • É verdade, meu caro Cláudio, eu também já ouvi justificativas deste tipo “Vamos pedir, vamos cobrar”, só que na hora de cobrar, sobra para nós que fiscalizamos / gerenciamos. Conto com suas visitas e comentários!!

  • Antonio Araujo de oliveira Filho

    Caro Stonner, é a primeira vez que leio seus artigos. Excelentes! Às vezes as pessoas enchem os MD’s de NORMAS no intuito de se resgurdar de ser apontado como omisso nas descrições dos serviços, não enxergando que aquele excesso dificulta tanto a fiscalização quanto ao andamento dos trabalhos e, via de regra, eleva o custo dos serviços.

  • Obrigado, Antonio Araújo, muitas vezes tantos detalhes são colocados, para que não sejam esquecidos, e geram é mais confusão e dificuldades na fiscalização (como se já não bastassem as dificuldades habituais…)

  • Leonardo

    Sensacional!!!!! Nossa mais simples e pura realidade!!!

  • Olá, Leonardo, esta do Van Halen realmente foi demais!!!

  • Henrique Sotoma

    Caro Stonner, o problema do MD ter N+! citações só de normas, se deve principalmente a quem faz a descrição do tal MD; ora essa, basta você citar uma as norma considerada principais no MD, pois cada uma delas trazem como conteúdo outra série de normas, por que citá-las todos eles no MD? Deve ser inexperiência de quem elabora tal documento ou então, porque a culpa sempre cai em quem faz o MD e o profissional resolve listtar tudo nesse MD! Basta citar as principais! O seu pessoal de fiscalização no campo deve saber perfeitamente disso! Se os seus subordinados nessa área de fiscalização já tem experiência, eles já devem saber os pontos principais a serem fiscalizados e quais são as normas aplicáveis para chamar a atenção da montadora ,não é mesmo? Sugiro que você e seu pessoal façam comentários nesse MD a quem de direito de modo que o MD saia mais enxuto da próxima vez. Bom proveito!

  • Caro Henrique, os MDs estão sendo simplificados, esta é uma tendência geral. Felizmente!!

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