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Segurança pra quê? – eu sou macho!

Stonner 9 Comentários 15.12.13 3261 Vizualizações Imprimir Enviar

Segurança – existe já a consciência de que quem faz a segurança é o Trabalhador. Neste sentido, mais do que os Equipamentos de Proteção Individual, é importante a atitude do Trabalhador frente aos riscos. Mas a atitude está vinculada ao modelo mental, o qual é formatado através da cultura local. Então, é fundamental a atuação do Gestor de Segurança nos aspectos comportamentais. Se quiser ser notificado dos novos artigos, cadastre seu e-mail aqui ao lado, em Assine o Blogtek! SEU E-MAIL NÃO SERÁ USADO POR TERCEIROS.

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Segurança – os sikhs e o capacete

Segurança - o uso de capacete pelos sikhs

Segurança – o uso de capacete pelos sikhs

Os Sikhs são seguidores de uma religião monoteísta originária do século XV, na Índia Central, e tem dentre seus preceitos de que os homens sikhs devem permanentemente manter suas cabeças cobertas por um turbante. Evidentemente, o uso deste turbante é incompatível com o uso do capacete, o qual é um dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) mais comuns e efetivos na proteção. Como conciliar este aspecto cultural (religioso) com a segurança?

Em alguns lugares, e dependendo da pessoa, há a concordância em usar o capacete SOBRE o turbante… o que não é nada prático, e muito menos efetivo…

Nos Estados Unidos, a questão chegou aos tribunais. Enquanto alguns tribunais entendem que o não uso do capacete não prejudica a segurança dos demais trabalhadores, portanto é uma questão de escolha individual, as seguradoras e consequentemente os empregadores, que são eventualmente obrigados a pagar prêmios mais altos pelas apólices, não concordam com este viés.

A postura dos tribunais está consistente com a questão da transfusão de sangue para Testemunhas de Jeová. Se não se pode obrigar um membro das Testemunhas de Jeová a receber uma transfusão de sangue por motivos religiosos, ainda que isto possa lhe custar a vida, como obrigar alguém a usar o capacete, se motivos também religiosos o impedem de tirar o turbante?

Problema similar se observa com relação à necessidade de se manter o rosto sem barba para possibilitar o uso adequado usar máscara respiratória. No período em que trabalhei na Refinaria de Pasadena tive que raspar meu cavanhaque, habitual desde minha juventude, para cumprir com esta exigência. No entanto, o Gerente de SMS, muçulmano, usava barba e não a raspava por motivos religiosos…

Segurança – o caso da Korean Air

Segurança - acidente aéreo

Segurança – acidente aéreo

De 1989 a 1998 a então Korean Air (atualmente Korean Airlines) teve uma série de acidentes com seus aviões, a ponto dos EUA orientarem suas tropas no país a não utilizarem seus voos, além de diversos rebaixamentos em suas notas, dadas pelas agências de aviação de vários países. Esta imagem para o público pode ser fatal para a empresa.

Surpreendentemente, a partir de 1999 a Korean Airlines deu a volta por cima, até que nos dias de hoje é uma das referências em segurança na aviação.

O engenheiro de segurança da Boeing, Earl Weener, afirma: “A cabine é projetada para ser operada por duas pessoas, e o resultado deste trabalho é melhor quando uma delas verifica o trabalho da outra, ou quando ambas se dispõem a fazer isto”. Foi este aspecto particular que chamou a atenção do consultor David Greenberg, da Delta Airlines, contratado em 2000 pela Korean Air para resolver o problema dos frequentes acidentes.

Ele se deu conta de que nem todos os funcionários (pilotos, tripulação, pessoal de terra) eram fluentes no Inglês. Muito mais do que a questão linguística, ele se deu conta da importância da questão cultural. A Coreia é um país de cultura muito hierarquizada, a ponto de uma pessoa com nível hierárquico inferior não começar a comer enquanto o outro, superior hierarquicamente, não começa a comer. Da mesma forma, ao beber na presença de uma pessoa hierarquicamente superior a tradição coreana orienta que o copo não seja exibido perante ao outro. Em uma cabine de avião, o piloto é hierarquicamente superior ao copiloto, porém as comunicações entre ambos não podem ser submetidas a este filtro cultural: devem ser rápidas, e permitir o trabalho conjunto.

Como primeiro passo, Greenberg determinou que a linguagem entre os tripulantes dos voos da Korean Air deveria ser em Inglês. Além de ser a linguagem oficial da aviação, o uso de outra língua que não o Coreano diminuiu consideravelmente os aspectos hierárquicos ligados à cultura coreana, permitindo uma participação mais efetiva do copiloto, engenheiros de voo, na condução da aeronave. Quem não conseguiu no prazo estipulado ter proficiência em Inglês foi demitido ou afastado das funções.

Claro que esta não foi a única ação de Greenberg, porém ilustra o papel fundamental da Cultura relacionada com a prática da Segurança.

Leia mais no livro de Malcolm Gladwell, “Fora de série”.

Segurança – e o mundo competitivo e machista

Segurança - aspectos comportamentais

Segurança – aspectos comportamentais

O mundo competitivo atual se reflete no âmbito profissional e pessoal: vencer é fundamental, os esportes radicais cada vez mais difundidos disseminam a ideia de vencer o perigo. E isto repercute no ambiente de trabalho industrial: se o bacana é buscar a emoção do perigo (esportes radicais), por que me submeter a todos os regramentos da Segurança? Isto, no inconsciente coletivo do trabalhador, é diminuir a “macheza”. Em um país latino, “macheza” é um valor fundamental…

Só para ilustrar a importância do conceito machista, relato aqui experiência vivida como coordenador de paradas de manutenção. Frequentemente temos que fazer radiografias industriais, utilizando pastilhas radioativas (gamagrafia). Normalmente estes ensaios são feitos na madrugada, quando é mais fácil assegurar-se que não haja ninguém na área exceto os operadores da gamagrafia. Por vezes, é necessário realizar a gamagrafia no curto espaço de tempo do almoço, e então redobram-se as preocupações com a evacuação da área. Neste caso, nos anúncios feitos pelo sistema de som da Parada, muito mais efetivo do que falar que a radiação pode ser mortal, é dizer que a radiação é brochante (o que não é verdade, a radiação pode causar esterilidade, não impotência…mas vale o exagero para obter-se o resultado).

Dentro desta estreita visão machista, muitas vezes para o trabalhador não usar o cinto de segurança para trabalho em altura é uma “prova” de quão corajoso ele é. Da mesma forma para o uso de muitos EPIs, e frente à postura diante de um perigo.

Escrever normas de segurança, preconizar o que deve ser feito nas frentes de trabalho, isto é relativamente simples. Difícil mesmo, para o Gestor de SMS, é fazer com que efetivamente o trabalhador incorpore os conceitos ao seu dia-a-dia, melhore sua percepção de riscos e melhore sua postura preventiva.

Por isso a importância dos trabalhos em nível comportamental, mostrando a presença na área, liderando pelo exemplo, conscientizando o trabalhador. Este é o principal papel do Gestor de SMS. Breve, publicaremos mais artigos sobre o tema. Se quiser ser notificado dos novos artigos, cadastre seu e-mail aqui ao lado, em Assine o Blogtek! SEU E-MAIL NÃO SERÁ USADO POR TERCEIROS.

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Stonner

Rodolfo Stonner, Engenheiro Mecânico pela UFRJ, atuou como Engenheiro de Equipamentos Sênior da Petrobras, e foi Gerente de Construção e Montagem das Obras Extramuros da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco. Atualmente aposentado, é consultor e instrutor nas áreas de Gerenciamento de Projetos e Gestão da Manutenção, e está atuando com a Deloitte na implantação do PMO para a Refinaria de Talara, Peru. Gosta de lecionar, trocar experiências e conhecimentos, é certificado como PMP (Project Management Professional) e RMP (Risk Management Professional) pelo PMI, e CRE (Certified Reliability Engineer) pela ASQ.

DEIXE O SEU COMENTÁRIO

  • DILMA

    Todos os que lidam ou já lidaram nas frentes de produção, nos canteiros de obras, nos estaleiros, conhecem bastante os relatos do professor Stonner.
    Tive diversas experiências relativas à dificuldade de “convencimento” do uso de cintos, luvas e óculos de proteção e outros equipamentos de segurança pelo simples fato do usuário “ser homem”.
    Coincido com o ponto de vista de que é fortalecendo a cultura da segurança que se conseguirá reverter esta postura, mesmo que num futuro ainda não muito próximo

  • Marcio Cunha

    Caro Stonner, parabéns por mais esse interessante artigo. Excelente abordagem. Pra uma comunicação eficiente com as equipes de frente de obra, é essencial que se tenha empatia, que se fale a mesma linguagem dos trabalhadores, considerando aspectos religiosos, regionais, culturais. É fato que a maioria de trabalhadores nessa área é composta de homens. E que grande parte deles ainda tem a cultura machista muito arraigada. Portanto, é um erro ignorar esse fato. Se o objetivo é zelar pela segurança de todos, temos que ter gestores de SMS com habilidade pra ‘transitar’ nesse meio, falando a mesma língua, conscientizando sobre os riscos, não apenas da forma erudita, com palestras e cartazes. Nem toda seriedade está no erudito. E, é claro, de quebra, tentando, aos poucos, vencer esta visão machista…

  • Antonio Luiz V. Vilhena

    Os hábitos decorrentes da cultura de um determinado grupo não pode sobrepor a cultura de segurança da empresa. Para isso o processo de comunicação desde a etapa de admissão de um novo empregado tem que ser claro e transparente. Não podemos resringir o acesso das pessoas ao trabalho por diferenças culturais, mas também não devemos flexibilizar as normas de segurança em razão dessas diferenças.

  • Meu caro,
    Entendo que a questão está na cabeça das pessoas, pode haver milhões de legislação, o que tem ser trabalhado é nos indivuduos, tem que haver comprometimento.
    At.

  • Valeu, Dilma!!

  • Exato, Márcio, lentamente temos que quebrar esta visão machista!

  • Concordo, Antonio Luiz, mas às vezes é difícil!!!

  • Exatamente, caro Neivaldo, o importante é abrir a mente das pessoas!!

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