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O Planejamento de uma Parada de Manutenção – Parte 1

Stonner 61 Comentários 05.05.13 17483 Vizualizações Imprimir Enviar

Business Concept by cooldesignO que é uma Parada de Manutenção? Nas indústrias de processo, muitos dos equipamentos não podem ser retirados da produção para fins de manutenção, enquanto a planta estiver operando. Portanto, após um determinado período de tempo, denominado “campanha da unidade”, é necessário parar a planta para poder fazer manutenção em TODOS os equipamentos. É isto que denominamos Parada de Manutenção.

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Parada de Manutenção – o conceito de Indústria de Processo

Em oposição às Indústrias de Fabricação, as Indústrias de Processo são definidas pela APICS (American Production and Inventory Control Society – http://www.apics.org/dictionary/dictionary-information?ID=3062) como:

Indústrias de processo são aquelas que adicionam valor aos materiais através de mistura, separação, conformação ou reações químicas. O processamento pode ser tanto contínuo como em bateladas (lotes) e geralmente requerem rígido controle do processo e alto investimento de capital.

 Processamento por bateladas:

Um processo industrial que prioritariamente programa curtos ciclos de produção de produtos.

 Processamento contínuo:

Processo no qual as interrupções são mínimas em qualquer corrida de produção ou entre corridas de produção de produtos que exibam características de processo, tais como líquidos, fibras, pulverizados, gases.

Por vezes, o termo contínuo é entendido como indústrias que trabalham 24 h/dia.

As Indústrias de Fabricação tem inúmeras etapas, consistindo de sistemas discretos (enumeráveis), enquanto nas Indústrias de Processo o sistema é contínuo e interligado. As Indústrias de Processo são indústrias da área de óleo e gás, petroquímico, siderurgia, papel e celulose, bebidas e alimentos, e fármacos.

São justamente as Indústrias de Processo, com processamento contínuo, aquelas que demandam a Parada de Manutenção, a qual ocorre após um período variável, dependendo do tipo de indústria. Mesmo dentro de uma mesma indústria, este período (tempo de campanha) varia. No refino de petróleo, unidades de destilação atmosférica e a vácuo tem uma campanha de cerca de 4 anos, unidades de processamento de gás natural (UPGN) tem campanhas em torno de 5 anos, e as caldeiras tem, por força da NR-13, campanhas de 12 meses (se a unidade tiver um Serviço Próprio de Inspeção de Equipamentos – SPIE – a campanha pode se estender para 18 meses). Na siderurgia as campanhas são sensivelmente menores.

Parada de Manutenção – caracterização PMI

 Night Scene Of Chemical Industrial by supakitmod2Segundo o PMI, “Projeto é um conjunto de atividades temporárias, realizadas em grupo, destinadas a produzir um produto, serviço ou resultado únicos”.

Um projeto é temporário no sentido de que tem um início e fim definidos no tempo, e, por isso, um escopo e recursos definidos.

E um projeto é único no sentido de que não se trata de uma operação de rotina, mas um conjunto específico de operações destinadas a atingir um objetivo em particular. Assim, uma equipe de projeto inclui pessoas que geralmente não trabalham juntas – algumas vezes vindas de diferentes organizações e de múltiplas geografias.

Então, percebemos claramente que uma Parada de Manutenção se enquadra no conceito de Projeto:

 

  • É formado por atividades temporárias, ou seja, a Parada de Manutenção tem início e término perfeitamente caracterizados
  • Tem um escopo muito bem definido, usualmente denominado Lista de Serviços de Parada, e tem recursos dimensionados para realizar este escopo
  • Ainda que a Parada de Manutenção ocorra regularmente em ciclos de alguns anos (campanhas), cada parada é diferente das demais em termos de escopo, prazo, recursos requeridos
  • Na Parada de Manutenção trabalham equipes múltiplas, tais como Manutenção, Operação, Inspeção, Engenharia, Suprimentos, e frequentemente são recrutados esforços em outros órgãos e locais da empresa

Ainda que a Parada de Manutenção se enquadre na definição de Projetos segundo  PMI, este evento tem características bem distintas da maioria dos Projetos, principalmente no que tange à duração (tipicamente de 20 a 45 dias, com variações que dependem do tipo de indústria) e na concentração do uso de recursos (mão de obra, equipamentos, materiais).

  • Evolução rápida dos serviços em relação ao tempo.
  • Prazos curtos para a realização, comparados à quantidade de trabalhos.
  • Grande número de frentes de trabalhos e de recursos envolvidos e significativa variedade de habilidades e especialidades.

Por estas razões, especial atenção deve ser dada ao Planejamento da Parada de Manutenção.

Parada de Manutenção – Planejamento

Definição do Escopo:

Diversos elementos contribuem para a definição do escopo de uma Parada de Manutenção. Ao término de uma Parada de Manutenção, é essencial ter-se um Relatório de Parada, no qual devem ser descritos os principais serviços executados, as dificuldades encontradas, as soluções técnicas utilizadas, recursos demandados, condições dos equipamentos, reparos executados, e eventuais reparos não executados. Este relatório é o primeiro input para a definição do Escopo.

Ao longo da Campanha, a Operação vai registrando problemas operacionais, dos quais alguns requerem imediata intervenção da Manutenção, e outros que não podem ser executados durante a campanha, irão agregar o Escopo da próxima parada de manutenção.

Registros da Manutenção ao longo da campanha também formam o escopo da próxima parada. Alguns reparos executados pela Manutenção podem ter atendido às necessidades da Operação, com a Unidade voltando a operar normalmente, porém a Manutenção pode visualizar a necessidade de um reparo mais efetivo e duradouro, a ser realizado na Parada de Manutenção.

Evidentemente, os registros da Inspeção de Equipamentos são input fundamental para a definição do escopo da próxima Parada de Manutenção: medição de espessura de tubulações e equipamentos, termografia de fornos, caldeiras, painéis e transformadores, análise metalográfica do óleo lubrificante, acompanhamento da vibração de equipamentos rotativos, etc.

A Engenharia pode estar desenvolvendo projetos de melhoria a serem implementados na próxima Parada de Manutenção, o que também será um input do Escopo da Parada de Manutenção.

As relações entre diferentes departamentos na Parada de Manutenção

As relações entre diferentes departamentos na Parada de Manutenção

O Escopo de uma Parada de Manutenção é usualmente denominado Lista de Serviços da Parada. Apesar de ser um documento dinâmico, permitindo modificações, há que se definir um momento para o Congelamento do Escopo, ou seja, um momento a partir do qual novos serviços não poderão ser incluídos. Isto porque é a partir da Lista de Serviços que é definida a Estratégia de Contratação, Compra de Materiais, Definição de Prazo da Parada, e mudanças na Lista de Serviços podem impactar severamente os resultados.

A definição do momento ideal de Congelamento do Escopo é vital, face às diferentes percepções que Manutenção e Operação têm da Parada (ver artigo aqui no Blogtek). Usualmente é também definida uma instância superior para a autorização de novos serviços na Parada, pois eventualmente isto pode ser necessário, mas não pode ser rotineiro.

Etapas do Planejamento da Parada de Manutenção

Após o congelamento do Escopo, a Lista de Serviços é consolidada, ou seja, é analisada por um grupo de preparação e planejamento da parada, buscando identificar inconsistências. Por exemplo, o histórico da Inspeção pode recomendar a manutenção em um determinado equipamento da Unidade, porém pode haver um projeto da Engenharia no qual este equipamento não será mais utilizado, sendo substituído por outro.

A Lista de Serviços consolidada é o referencial de partida para uma série de atividades cujos prazos em relação a esta data podem variar, em função das características de cada indústria, do prazo de campanha de cada unidade.

  • Estratégia de Contratação: com o conhecimento dos principais serviços, pode-se definir a estratégia de contratação, etapa muito importante em um Projeto, conforme já vimos em artigo aqui no Blogtek.
  • Aquisição dos principais materiais: alguns materiais podem ter ressuprimento automático, sendo apenas necessário ajustar parâmetros para a possibilidade de consumo acima do esperado durante a parada. No entanto, há materiais que devem ser adquiridos especificamente para a Parada.
  • Prazos da Parada: com base no macro-planejamento, será definido o prazo da parada, a ser estabelecido nos contratos a serem elaborados. Usualmente, o Planejamento Executivo é deixado a cargo das empresas que irão realizar os serviços.
  • Estrutura Organizacional: dependendo do porte da Parada, dos recursos disponíveis, das especialidades envolvidas, será definida a Estrutura Organizacional da Parada, a qual poderá ser Matricial, solução que dispende menos recursos e permite melhor aporte técnico a cada área de trabalho, ou Hierárquica (tradicional), solução que privilegia a rapidez no processo decisório e minimiza conflitos na utilização de recursos.
Estrutura Organizacional Tradicional em uma Parada de Manutenção

Estrutura Organizacional Tradicional em uma Parada de Manutenção

Estrutura Matricial em uma Parada de Manutenção

Estrutura Matricial em uma Parada de Manutenção

  • Lay-out da Estrutura da Parada: ao contrário de empreendimentos “Green field” (construção de novas unidades), a Parada ocorre em um site onde já há um Planta operando, e possivelmente outras plantas próximas estarão operando durante a Parada de Manutenção, sendo portanto vital um adequado estudo do lay-out da estrutura da parada, otimizando a utilização dos poucos espaços livres existentes, e levando em conta a necessidade do fluxo de informações e trabalho, agilizando o processo decisório.
  • Interfaces: havendo diferentes especialidades trabalhando em ritmo intenso, e compartilhando espaços reduzidos, especial atenção deve ser dada ao gerenciamento de interfaces, definindo posicionamento e rotas para máquinas de elevação de cargas, detectando interferências entre serviços, compartilhamento de recursos, etc. Seguem-se alguns exemplos de interfaces comuns em uma Parada de Manutenção:
    • Motores e bombas
    • Bombas e tubulação
    • Isolamento e pintura
    • Tubulação e pintura
    • Tubulação e isolamento
    • Caldeiraria e refratário
    • Operação e manutenção (parada e partida)
    • Campo e oficinas

A figura a seguir ilustra o sequenciamento de algumas destas principais atividades, sem considerações de prazo. O prazo deve ser ajustado às características de cada Parada, de cada indústria:

Sequenciamento das principais atividades no Planejamento de uma Parada de Manutenção

Sequenciamento das principais atividades no Planejamento de uma Parada de Manutenção

 

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Stonner

Rodolfo Stonner, Engenheiro Mecânico pela UFRJ, atuou como Engenheiro de Equipamentos Sênior da Petrobras, e foi Gerente de Construção e Montagem das Obras Extramuros da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco. Atualmente aposentado, é consultor e instrutor nas áreas de Gerenciamento de Projetos e Gestão da Manutenção. Gosta de lecionar, trocar experiências e conhecimentos, é certificado como PMP (Project Management Professional) e RMP (Risk Management Professional) pelo PMI, e CRE (Certified Reliability Engineer) pela ASQ.

DEIXE O SEU COMENTÁRIO

  • Que bom, Cláudio, seja bem vindo ao Blogtek!!!

  • Neander

    Gostaria de ver o artigo que voce escreveu ou vai escrever sobre a Parada REGAP 2014.

  • Neander, eu não me envolvi com a Parada da REGAP 2014…mas se encontrar alguém que a tenha vivenciado, e queira fazer o relato, convidarei!

  • Santana, José Ademir

    Bom dia!

    Ótima matéria descrevendo com clareza e detalhes as etapas de uma grande parada de manutenção, devido minha experiência no planejamento dessas grandes paradas de manutenção nas indústrias Petroquímicas gostaria de ressaltar a necessidade da inclusão das especialidades de Elétrica e instrumentação nos quadros da Estrutura Organizacional Tradicional em uma Parada de Manutenção.
    Sds.
    Santana, José Ademir.

  • Manoel Clementino Gomes

    Boa noite,
    Quero conhecer o material, depois comenta-lo.
    Obrigado pela oportunidade.
    Atenciosamente.

    Manoel Clementino.

  • Sr. Rodolfo Stonner. Bom dia. Estou desenvolvendo novos contatos com a Petrobras para realização de Paradas de manutenção e Manutenção Industrial. Gostaria de sua opinião para como encontrar os contatos das respectivas áreas e apresentar nossa empresa. Atualmente efetuamos obras em Recife ( Suape) e nossa empresa está localizada em Betim próximo à Regap. Antecipo agradecimentos e me coloco à disposição.

  • Olá, Jonatas. Grato por visitar o Blogtek. No entanto, cumpre ressaltar que o Blogtek é um blog desenvolvido por mim, como forma de comaprtilhar o conhecimento adquirido ao longo destes longos anos de trabalho. Não é escopo deste blog, e isto está descrito na Política de Privacidade, intermediar contatos comerciais. Pessoalmente, desejo-lhe boa sorte e bons negócios!

  • Marcelo Marins

    Primeiramente, quero parabenizar o SR. Rodolfo Stonner, pela excelente explanação sobre PARADA DE MANUTENÇÃO. Tive a oportunidade de trabalhar em algumas, não com sua presença direta, mais com o seu acompanhamento.
    Buscando algumas informações sobre paradas de unidades e manutenção, encontrei esse blog, e gostaria de lhe fazer uma pergunta, claro, se o senhor Rodolfo Stonner puder me responder!

    Trabalhei como Técnico de Campo em 2010 na (REDUC) participei de algumas paradas de unidades, só que sai da área industrial e fui para área de construção civil. Hoje quero voltar a atuar na área industrial, então pergunto.

    Qual o função que devo atuar, já que tenho os cursos Técnicos de Informática, Eletrotécnica e Edificações?

    Me ajuda ai professor!

  • Marcelo, grato pelo comentário. Entendo que por sua formação você pode procurar algo na área de supervisão de Elétrica, ou, dependendo da experiência, na área de Instrumentação e Automação. Desejo-lhe sucesso!

  • Vanderley Matias

    Prezado Rodolfo, tudo bem?
    Saiba que seu blog possui informações que agregam muito valor. Impossível deixar de acompanhá-lo!

    Gostaria de uma opinião. Em uma parada de manutenção a ocorrer em duas unidades de processos, como devo considerar o planejamento para as mesmas, tendo em vista que farei o planejamento das disciplinas de elétrica e instrumentação apenas, em paralelo outras disciplinas também estarão atuando. Meu planejamento integrará o planejamento da refinaria, pois que faço parte de uma empresa contratada para execução do escopo das disciplinas que citei. No sequenciamento apresentado, posso partir do ponto de detalhamento? Considerando a particularidade de cada contexto, qual seria a melhor condição (ou forma) de se medir financeiramente os serviços executados? Qual a melhor prática adotada? Existe alguma literatura que aborde algo nesse contexto?

    Abraço!

  • Olá, Vanderley, obrigado pelo incentivo! Para responder à sua pergunta, seria necessário saber se as outras disciplinas também estarão fazendo o planejamento no mesmo software que você. Acho fundamental que isto ocorra, pois sabemos que em uma parada de manutenção as interfaces são muitas, de maneira que você pode estar planejando alguma atividade que na prática seja inviável de ocorrer, devido a alguma interferência de outra disciplina. O Project, o Primavera, o Spider Project, todos eles tem a capacidade de trabalhar com múltiplos projetos, mas é necessário que o cliente assim o deseja. Quanto ao acompanhamento financeiro, depende do tipo de contrato, se é por administração (provavelmente não), preço global ou preços unitários (provavelmente sim, por ser um contrato de manutenção). Literatura específica não conheço, há alguns livros sobre Parada de Manutenção (ainda não arrumei tempo para escrever o meu…rsrsrsrs), Sucesso em Paradas de Manutenção (https://goo.gl/kTeJDW), do Luiz Alberto Verri, Gerenciamento de Paradas de Manutenção, do John Moschin (https://goo.gl/z24Dy9).

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