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O Canal do Panamá – a Tentativa Francesa

Stonner 17 Comentários 23.06.13 4524 Vizualizações Imprimir Enviar

A história da construção do Canal do Panamá é uma lição de Análise de Riscos. Claro que é um aprendizado a partir dos erros cometidos. Porém: “Os tolos dizem que aprendem com os seus próprios erros; eu prefiro aprender com os erros dos outros.” – citação de Otto Bismarck (chanceler alemão 1815 – 1898).

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Vista do Canal do Panamá

Vista do Canal do Panamá

 

Canal do Panamá – o primeiro projeto

Vista do Canal de Suez

Vista do Canal de Suez

No século XIX, a França, em especial Paris, era o centro cultural do mundo. A literatura, as artes, a música, a Engenharia, tudo gravitava em torno da Cidade-Luz. A França vivia a glória de uma recente conquista da Engenharia, a abertura do Canal de Suez. Este canal une o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho, evitando desta forma que as mercadorias vindas da Europa para o Oriente tivessem que ser transportadas por terra, ao longo de 200 km, ou que as embarcações tivessem que contornar toda a África.

O engenheiro Ferdinand de Lesseps, construtor do canal, era a referência mundial como Gerente de Projeto. Nada mais natural que, ao se discutir a possibilidade de construir algum canal ao longo da América Central, unindo o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico, o nome de Lesseps fosse lembrado.

O mapa do Canal do Panamá

O mapa do Canal do Panamá

Em 1870, iniciaram-se os entendimentos com o governo da Colômbia, da qual o Panamá então fazia parte. Em 1879, Lesseps patrocinou um Congresso Internacional para estudar o assunto, e ao final definiu-se a construção de um canal, todo no mesmo nível, atravessando o Panamá. A maioria dos engenheiros presentes não concordava com esta proposta, entendia que deveria haver um sistema de eclusas, que permitisse os navios mudarem de nível, e desta forma diminuir os trabalhos de construção, pois, se não havia montanhas da escala das cordilheiras europeias, havia elevações de 130 m a serem vencidas. Mas, quem iria contestar a proposta de Lesseps, o grande engenheiro de Suez?

Inadequada avaliação técnica

Culto à Personalidade

O passado moldando o futuro

Canal do Panamá- o início da Obra

Ferdinand de Lesseps

Ferdinand de Lesseps

Lesseps constituiu a Compagnie Universal du Canal Interoceanique, e levantou cerca de US$ 60 milhões, quantia considerável, mas bem abaixo da primeira estimativa, de mais de US$ 200 milhões. O planejamento também foi subestimado: quase nada foi detalhado, o planejamento de uma obra deste porte basicamente se resumiu ao que havia sido discutido no Congresso. Em 1882, iniciaram-se as escavações, e o planejamento foi sendo feito em paralelo à execução. A estimativa inicial era de escavação de 40 milhões de metros cúbicos, estimativa rapidamente corrigida para 120 milhões de metros cúbicos.

Em 1885, os custos foram revistos, e foram obtidos fundos de investidores no valor de US$ 240 milhões. A data de término foi adiada, mas não foi definida nova data. Os fundos foram obtidos com certa facilidade, porque as informações eram de que o canal já tinha 50% da escavação concluída. Mas, não era 50%, era menos de 15%.

Em 1887, os custos estimados subiram para US$ 330 milhões, e esta montante adicional foi obtido por via de empréstimos. Finalmente, chegou-se à conclusão de que o canal teria que ter eclusas…

Falta de planejamento

Reservas monetárias mal estimadas e totalmente inadequadas

Falta de projeto detalhado

Inadequada gestão da mudança de escopo

Informações truncadas e falsas

Canal do Panamá – as doenças

Construçaõ do Canal

Construção do Canal

Inúmeros trabalhadores caíam doentes logo na chegada, vitimados pela febre amarela e pela malária. Não se conhecia o mecanismo de transmissão destas doenças. Imaginava-se que eram devido aos ares pestilentos da região pantanosa em que trabalhavam (daí o nome malária = mal aire)

Foi construído um grande hospital, para atendimento aos trabalhadores enfermos. Bonito, amplo, e… cheio de plantas e lagos, para tornar o local mais aprazível…os mosquitos adoraram!!! Muita gente acamada, água parada para reprodução, o que mais um mosquito quer da vida? E a malária e febre amarela aumentando exponencialmente…

Nesta fase francesa da Obra, cerca de 25.000 trabalhadores faleceram em decorrência das enfermidades.

Desconhecimento dos riscos

Inadequado plano de mitigação de riscos

 

Canal do Panamá – fim melancólico do projeto francês

Em 1892, o projeto foi encerrado. Em decorrência disto, caiu o governo francês. Ferdinand de Lesseps foi condenado a 5 anos de prisão, os quais não cumpriu em função de seu precário estado de saúde.  Morreu pobre e fora de seu juízo, em 1894, aos 89 anos de idade. A lama do Canal do Panamá atingiu até o amigo pessoal de Lesseps, o engenheiro Gustave Eiffel, em que pese seu reconhecimento e sucesso pela construção da Torre Eiffel, por ter apoiado e patrocinado a causa do Canal do Panamá, foi condenado a devolver aos cofres públicos 10 milhões de francos.

O fio do bigode…

O Chanceler Bismarck

O Chanceler Bismarck

Comecei este post citando o Chanceler Bismarck. Como este artigo relata um projeto francês muito mal sucedido, permitam me dar uma revanche, contando um fato verídico a respeito do Chanceler Bismarck. Por volta de 1870, após a guerra Franco-Prussiana, estavam na mesa de negociação pós-guerra os representantes da França e Alemanha, dentre eles o Chanceler Bismarck. Em dado momento da discussão, os franceses mencionaram sua supremacia nas artes… Bismarck, furioso, arrancou um fio de seu vasto bigode prussiano, e entregou-o aos franceses, dizendo: “Tomem, quero ver se conseguem fazer arte com isto…”

Os franceses levaram o fio do bigode a um famoso ourives francês, o qual construiu uma pequena estátua em ouro, com uma águia (representando a Alemanha), sustentando pelo fio do bigode de Bismarck uma miniatura do território da Alsace-Lorraine, área francesa, rica em ferro e carvão, que os alemães tinham conquistado na guerra. E, na base da pequena estátua, uma inscrição “Vous ne la tenez que par um fils” (Vocês a tem por um fio…). E, de fato, após a primeira Guerra Mundial, o território da Alsace-Lorraine foi definitivamente recuperado pelos franceses.

Atualmente, a expressão “pelo fio do bigode”  mudou de sentido, refere-se a algo feito na confiança, sem documentação. Mas a origem da expressão foi esta.

Nas próximas semanas, continuaremos com esta história épica, cheia de aprendizados. Para ser notificado dos próximos posts, cadastre seu e-mail no topo da página, à direita. SEU E-MAIL NÃO SERÁ USADO POR TERCEIROS.

 

 

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Stonner

Rodolfo Stonner, Engenheiro Mecânico pela UFRJ, atuou como Engenheiro de Equipamentos Sênior da Petrobras, e foi Gerente de Construção e Montagem das Obras Extramuros da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco. Atualmente aposentado, é consultor e instrutor nas áreas de Gerenciamento de Projetos e Gestão da Manutenção, e está atuando com a Deloitte na implantação do PMO para a Refinaria de Talara, Peru. Gosta de lecionar, trocar experiências e conhecimentos, é certificado como PMP (Project Management Professional) e RMP (Risk Management Professional) pelo PMI, e CRE (Certified Reliability Engineer) pela ASQ.

DEIXE O SEU COMENTÁRIO

  • Excelente artigo, caro Stonner. Na linha da qualidade do que voce sempre nos brinda.

  • Ricardo França

    Excelente artigo! Recordar é viver…

  • dilma

    Olá Mestre!
    Sempre útil estabelecer um olhar para os fatos passados de maneira que se possa conhecer os erros e acertos cometidos.
    Claro que o passado não dita o futuro e de nada adianta dirigir o carro apenas olhando pelo retrovisor.
    No entanto, ampliar a visão e buscar entender o que aconteceu facilita, e muito, a concepção de hipóteses do que poderá suceder enriquecendo o planejamento, fator determinante de sucesso para qualquer projeto.
    Ainda mais quando fazemos uma visitinha à história recente, tudo fica ainda mais interessante.
    Keep on do it!
    Abs

  • oedes de jesus

    Bom Dia Sr Stonner , poderia me dizer qual a previsão para continuação da obra Refinaria Premium 1 ?

  • Obrigado, Paulo Walter!! Realmente, acho a história do Canal do Panamá muito instrutiva. Breve, sairá a parte americana, como resolveram os problemas! Abraços!

  • Obrigado, Ricardo! A história é interessante e nos ensina lições!

  • Olá, Dilma, estava sentindo falta de seus comentários!! Obrigado!

  • Oedes, em 2014 haverá algumas obras de infraestrutura.

  • Herik Lessa

    Caro Stonner,

    Muito interessante ler esta história e pararmos para refletir nos dias atuais.
    Hoje trabalho com Ger. de Riscos, e muitas vezes nos pegamos em situações como estas, em que no inicio dos projetos o planejamento é mal elaborado e os riscos são subestimados.
    Hoje vejo nas reuniões que faço que muitos gerentes, engenheiros ainda subestimam o Ger. de Riscos achando que é apenas uma bobagem, quando na verdade o Ger. de riscos está ali para ajudar a empresa a poupar recursos, tanto Hh como $$.
    Os projetos do passado nos servem de lição aprendida para não cometermos os mesmos erros, podemos cometer novos erros, mas erros já aprendidos jamais.

  • É verdade, Herick, fala-se muito em lições aprendidas, porém infelizmente vemos frequentemente a repetição de erros de passado.

  • Pingback: Canal do Panamá – o sucesso americano blogtek.com.br | blogtek.com.br()

  • Maydson Morais

    Prezado Stonner,

    Parabéns pelo excelente trabalho, realmente singular. Realmente temos ferramentas importantíssimas e fundamentais para o sucesso atual, claro que com base e experiências voltadas para os erros do passado, passado esse que se difunde com o presente.

    Fundamental a análise de risco por menor que seja a atividade e/ou projeto, pois seria impossível mensurar o real impacto sobre o feito.

    Parabéns novamente!

    Maydson

  • Obrigado, Maysdson! De fato, como já tive oportunidade de mencionar aqui no Blogtek, creio que o Gerenciamento de Risco é uma das áreas de conhecimento mais vitais para o sucesso de projetos!!

  • Prezado Stonner,
    feliz coincidência ler esse artigo, é que na semana passada tive o módulo de gestão de risco II, e o professor passou esse case. Muito legal, pois essa obra foi literalmente feita sem planejamento, sem gestão e com muitas lições aprendidas. Se fossemos enumerar uma lista de coleta de dados que derão errado, com certeza enumeraríamos mais 200 situações.

    Abraços,
    José Augusto

  • Co certeza, José Augusto, o Canal do Panamá é um repositório de Lições Aprendidas!!

  • Paulo Tibério

    Caro Stonner,

    Não conhecia a história de construção de Canal do Panamá. Agora tenho mais uma para coletânea de lições do passado.

    A história mostra que temos que olhar para trás para aprender com erros e acertos e no presente construir um futuro mellhor.

  • Olá, Tibério, bem vindo ao Blogtek… há outro post, falando do Canal do Panamá, na realização americana: http://blogtek.com.br/canal-do-panama-o-sucesso-americano/

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