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Custo de oportunidade de capital nos custos horários dos equipamentos

Luiz Cláudio Estima 10 Comentários 25.09.13 3637 Vizualizações Imprimir Enviar

Custo de oportunidade de capital – temos hoje o prazer de mais uma vez poder publicar uma colaboração de nosso brilhante colega Luiz Estima, economista e engenheiro civil, com grande experiência em orçamentos, formação de preços e auditorias. Neste artigo, Estima foca a questão do custo dos equipamentos de uma grande Obra, cujos custos de aquisição são muito elevados. Para ser sempre informado sobre os novos artigos, cadastre seu e-mail aqui ao lado, em Assine o Blogtek! SEU E-MAIL NÃO SERÁ USADO POR TERCEIROS.

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I . Custo de Oportunidade de Capital – Introdução

Estima07Os empreendedores que vão executar uma obra precisam saber todos os custos incidentes nos insumos utilizados nela para que possam calcular seus custos corretamente e precificá-los de forma a orçá-la de maneira economicamente viável.

Os equipamentos de uma grande obra têm um valor de aquisição elevado. E seus custos horários são de suma importância para a elaboração do orçamento dessa obra. Afinal, a disponibilidade e utilização deles têm um custo, e nada relevantes, à executora dos serviços. Mais ainda se a obra for de intensa utilização de equipamentos, como é o caso de obras de terraplenagem e construção de estradas, as quais têm como referencial oficial o SICRO do DNIT.

Existem muitos trabalhos sobre como se calcular esses custos horários desenvolvidos por diversos autores diferentes, com muitas conclusões em comuns entre eles. Uma delas é a consideração dos custos de oportunidade de capital para a aquisição desses equipamentos, chamado de juros. Destaca-se que a grande maioria desses trabalhos, diverge do SICRO sobre como se inserem os custos horários dos juros nos equipamentos.

O presente artigo analisará como o manual do SICRO descreve a forma de inserir esses custos nos seus referenciais de preços.

II . Como o SICRO entende que devam ser considerados os juros

Estima06A grande diferença entre o que comumente os autores do assunto descrevem sobre os custos dos juros e o manual do SICRO é que os primeiros os calculam através de uma fórmula matemática que considera o valor de aquisição do equipamento, os juros de mercado incidentes e a vida útil e os inserem nos custos horários totais dos equipamentos.

Já o SICRO, apesar de descrever de maneira semelhante como se calculariam esses custos, conclui que os mesmos não devem ser inclusos nos custos horários totais dos equipamentos, mas sim, estarem embutido no LDI (Lucros e Despesas Indiretas).

O interessante é que essa conclusão do manual, é feita após uma exposição de como se calcular os custos horários relativos aos juros dos equipamentos, como dito antes, de forma muito semelhante a literatura sobre o assunto, através da seguinte fórmula :

Jh = (Im x i)/HTA, com Im = [(n+1) x VA] / 2n; sendo :

Jh = custo horário dos juros (R$/hora);

n = vida útil (anos);

VA = valor de aquisição (R$);

i = taxa de juros anual, sugerida pelo SICRO em 6% a.a.;

HTA = horas trabalhada por ano (horas)

Um exemplo desses custos horários relativos à juros, pode ser aplicado de acordo com os valores do SICRO para Motonivelador Caterpillar: 120 H, Rio de Janeiro, em janeiro de 2013 (VA = R$ 1.915.105,73; n=7,50 anos e; HTA = 2000 horas). Os valores estão descritos na tabela abaixo e resulta em um custo horário relativo a juros (Jh) de R$ 32,56/hora.

Custo horário relativo a juros

Custo horário relativo a juros

No entanto, esse valor de R$ 32,56/hora, de acordo com o SICRO, deve ser incluso no LDI e não nos custos diretos. Isto é dito de forma clara e explicita no Manual, na página 51 (http://www1.dnit.gov.br/rodovias/sicro/download/Volume1_Un_2003.pdf) , transcrita a seguir :

“As indicações aqui fornecidas servem como orientação para que se possa ter idéia do montante de juros contidos nos custos horários de equipamentos, lembrando, entretanto, que tal parcela não é calculada nem computada explicitamente, pois fica embutida na margem do LDI.”

Então, sempre que se obter os custos de um serviço pelo SICRO sem a inclusão do LDI, os custos dos juros não estarão embutidos nos custos horários dos equipamentos, mas devem estar inclusos no LDI.

III . Uma análise dos custos de juros dos equipamentos, segundo manual do SICRO

Com o dito anteriormente, pode-se analisar um exemplo de serviço cuja composição de custos unitários possa ser obtida pelo SICRO e calcular os custos de juros dos equipamentos.

Para tal, utiliza-se um exemplo de serviço padrão em obras rodoviárias, qual seja a escavação, carga e transporte de material de 1ª categoria, com DMT de 50 a 200m com motoscraper, código : 2 S 01 100 02, com as seguintes condições :

  • os custos de aquisição dos equipamentos são retirados do SICRO 2, Rio de Janeiro, janeiro de 2013;
  • uma taxa de juros anual para remunerar os custos de oportunidade de capital de 6,00% a.a., sugerida pelo Manual do Sicro 2;
  • Quantidade de 665.600 m3 com todo o serviço sendo executado em um ano, (produção por hora 320 m3/hora, conforme composição de serviços do SICRO 2, com 8 horas/dia, 5 dias por semana, e 52 semanas no ano, assim : 320 m3/hora x  8 horas/dia x 5 dias/semana x 52 semanas/ano = 665.600 m3 / ano).

Portanto, durante um ano de execução de serviços, serão escavadas, carregadas e transportadas 665.600 m3 de terra de material de 1ª categoria, a uma distância média de transporte entre 50 e 200 metros, supondo que a produção horária desse serviço, que é definida pelo SICRO (320 m3/hora), seja distribuída pelas 8 horas normais de trabalho diárias, durante 52 semanas por ano.

O custo desse serviço, definido pelo SICRO é de R$ 3,86/m3 (sem a incidência do LDI) para o Rio de Janeiro, janeiro de 2013. A tabela abaixo, transcreve a composição unitária desse serviço, de acordo com o SICRO :

Custo de oportunidade de capital - Composição original do SICRO

Custo de oportunidade de capital – Composição original do SICRO

Logo, o custo total para execução de toda a quantidade citada anteriormente, 665.600 m3, é calculada conforme tabela abaixo, resultando em R$ 2.569.216,00:

Custo de oportunidade de capital - Custo dos serviços

Custo de oportunidade de capital – Custo dos serviços

III. 1. O cálculo percentual do custo de juros do serviço :

Como os serviços serão executados em um ano, pode-se calcular os custos relativos aos juros incidentes anualmente de acordo com o valor de aquisição dos equipamentos necessários a execução desse serviço de acordo com SICRO, resultando em R$ 576.911,61, conforme tabela abaixo :

Custo de oportunidade de capital - Custo dos juros anuais

Custo de oportunidade de capital – Custo dos juros anuais

Ou seja, para executar durante um ano o serviço de escavação, carga e transporte de material de 1ª categoria, com DMT de 50 a 200m com motoscraper de 665.600 m3, com custos diretos de R$ 2.569.216,00, é necessário acrescer a esses custos um valor de R$ 576.911,61 em seu BDI apenas para cobrir os custos financeiros de aquisição dos equipamentos necessários à sua execução.

Isso representaria um percentual de cerca de 22,45% a ser acrescido no BDI, para respeitar o determinado pelo manual do SICRO 2, que considera que esses custos de juros devem ser inclusos no BDI e não nos custos horários dos equipamentos, conforme tabela abaixo :

Custo de oportunidade de capital - percentual relativo a juros

Custo de oportunidade de capital – percentual relativo a juros

Esse valor de despesa financeira (juros) não parece razoável. Apenas a titulo de comparação, no calculo de BDI de referência do Acórdão 325/2007, o valor máximo para a despesa financeira é de 1,20% e no Acórdão 2369/2011 é de 1,50%. Ou seja, valores significativamente menores que 22,45%.

E ainda, o próprio SICRO na composição unitária desse serviço, estabelece como LDI (ou BDI) o percentual de 26,70%. Se apenas 22,45% são de custos financeiros, sobram para as outras parcelas do LDI (lucro, administração central, contingências, seguros, impostos) 4,25%. Não parece ser razoável esse valor.

III. 2. Caso de serviços paralisados e juros inclusos no BDI :

Mas, ainda que esse percentual esteja incluso no BDI, conforme determinado pelo SICRO, fica evidente que, caso os serviços sofram a interrupção de um ano, por exemplo, ou seja, ao invés de seu prazo contratual inicial de um ano, os serviços sofreram diversas paralisações por responsabilidade da CONTRATANTE, de forma que foi necessário dobrar seu prazo de execução (dois anos agora), supondo constantes as variáveis acima (sem a inclusão de inflação), os custos dos juros seriam dobrados, uma vez que cada ano representa um custo de R$ 576.911,61 relativos aos juros anuais. Ainda, supõe-se que em cada ano seja realizado a metade do total dos serviços, 665.600/2 = 332.800 m3.

Então, os custos relativos aos juros seriam R$ 576.911,61 vezes dois, totalizando R$ 1.153.823,22, porém, como os custos de juros estariam inclusos no BDI de serviços, a construtora, apenas seria ressarcida nos R$ 576.911,61 inclusos nos custos diretos dos serviços executados. De forma alguma isso representaria a realidade dos custos incorridos pela construtora. A tabela  abaixo demonstra esses cálculos em detalhe :

Custo de oportunidade de capital - exemplo

Custo de oportunidade de capital – exemplo

Assim, a única maneira de ressarcir corretamente a executora das obras dos seus custos de oportunidade de capital, (no exemplo acima, o valor total de R$ 1.153.823,22), é incluir os custos de juros quando os equipamentos estiverem paralisados em seus custos horários. Dessa maneira, ao se ressarcir os custos dos equipamentos paralisados com os juros inclusos nesses custos, em um ano que os equipamentos foram paralisados (conforme exemplo acima), a construtora seria ressarcida do custo de oportunidade de capital utilizado para aquisição dos equipamentos, o que não ocorre quando se inclui no BDI esses custos.

IV . Custo de Oportunidade de Capital – Conclusão :

É verdade que o SICRO é claro e explicito que os custos horários dos equipamentos relativo aos juros devem ser inclusos no BDI. E como o SICRO é o referencial oficial que a administração pública deve seguir na execução de obras públicas, os custos dos juros não podem fazer parte dos custos horários totais dos equipamentos.

Porém, para se incluir tão elevado percentual nas parcelas de BDI, necessariamente terá que ser desrespeita vasta jurisprudência do TCU sobre o assunto. E o próprio TCU costuma exigir obediência à tudo exposto no manual do SICRO. Além disso, em caso de paralisação de serviços, o que é muito comum durante execução de obras, os custos relativos aos juros, serão totalmente ignorados, caso apenas inclusos no BDI.

De fato, é uma situação que tem sido motivo de muito debate na engenharia de custos e exige uma analise detalhada de caso a caso, ainda que os referenciais oficiais sejam explícitos.

Por tudo isso, é necessária cautela no cálculo correto de parcela relevante de custos horários dos equipamentos, os juros, caso se utilize o SICRO para esse cálculo.

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Luiz Cláudio Estima

Luiz Estima, Engenheiro Civil Estrutural pela UFRJ, Economista pela UERJ, Economista e Engenheiro Civil da Petrobras, MBA em Economia e Gestão em Energia na COPPEAD. Também é diretor da científica Revista Amélia. É apaixonado por ciência.

DEIXE O SEU COMENTÁRIO

  • Excelente! matéria técnica e muito pertinente.

  • Luiz Estima

    Luiz Freire! Grato pelo comentario! Voce conhece muito mais que eu sobre orcamento de obras!

  • DILMA

    Importante é a questão das auditorias realizadas pelos órgãos de analise e verificação tais como TCE e TCU e a realidade que a cada momento se apresenta.
    A sociedade, como um todo, demanda mudanças em diversos aspectos da legislação e, como não pode deixar de ser, a atividade de contratação na administração pública requer ainda mais urgentemente esta revisão.
    Atualmente são realizados verdadeiros malabarismos, onde os gestores se transformam em equilibristas para realizar seus empreendimentos sem ofender à legislação.
    Sair desta encruzilhada é urgente!

  • luiz estima

    Dilma, você tem a mais absoluta razão. Gestor publico hoje em dia tem que agradar a gregos e troianos em siutações cada vez mais complexas.
    Não tem compensado ser um gestor publico no Brasil

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  • Luiz Gonzaga da Costa Gadelha

    Caro Estima
    Gostei muito da sua matéria. O pior, é que o SICRO 3 diz no inicio do TOMO 1, que no custo da hora improdutiva do equipamento serão inclusos os custos de propriedade e operação, e mais na frente, na formula final, coloca apenas o custo de operação. Precisamos dar um ajuste neste assunto. Sua matéria é oportuna. Parabéns.

  • Luiz Cláudio Estima

    Caro Luiz Gonzaga

    De fato o SICRO 3 ainda precisa de muitas melhorias. Talvez por isso ainda não esteja oficialmente em utilização.
    Custos de equipamentos é um assunto de extrema importância e tem que ser analisado com todo cuidado. Importante estarmos atentos!
    Grande abraço e obrigado pelo comentário!

  • Manoel Marcelo Montenegro

    Excelente matéria, condensou num texto o que a maioria dos engenheiros de custo sofrem para conseguir com malabarismos não ofender a legislação. Não é magica, é matematica, simples, clara e objetiva. Parabens mais uma vez, prova que os manuais não são tomos escritos em pedra que não podem ser alterados e melhorados.

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